Parafraseando o título de uma matéria de um tempo atrás do amigo Bruno
Agostini (do jornal O Globo), a minha abordagem com este mito da enologia mundial
nem foi tão diferente: uma prova através de uma Enomatic.
A amiga e colega blogueira Evelyn Fligeri do delicioso blog
Taças e Rolhas relatou recentemente de um novo wine bar em São Paulo onde é
possível degustar esta belezura em taça e, aproveitando minha breve passagem pela
capital paulista neste último fim de semana, quis conhecer a casa e provar o
famoso néctar dourado.
Depois de um belo jantar no celebrado Figueira Rubayat -
onde comi uma das carnes mais macias já provadas, acompanhada por um honesto
Marques de Riscal - fiz questão de ir até o tal do Bardega para uma saideira
digna da noite.
O bar, bastante bonito por sinal, é o primeiro do Brasil a
oferecer mais de 100 vinhos em taça, divididos em uma dúzia de maquinas
Enomatic, em conceito de self-service. Em total degustei 5 vinhos: dos outros
falarei proximamente, hoje vamos falar do rei dos botritizados, com o qual
encerrei a noite.
Diferentemente da Evelyn, que provou uma safra recente,
naquela noite era oferecido um 1997, uma das melhores safras de sempre em
Sauternes (e em particular no Château d’Yquem). A dose de 30ml custava R$70,00,
objetivamente cara para provar um golinho, mas válida para aqueles que não
querem/podem gastar valores de 4 dígitos para adquirir uma meia garrafa (eu sou
um deles).Então não pensei meia vez e peguei meu golinho.
Com 16 anos de vida, o caldo mostrou muita vitalidade, coisa
nem muito surpreendente, afinal estamos falando de um dos vinhos mais longevos
do mundo, capaz de envelhecer por muitas décadas A linda cor dourada era o prelúdio
dos aromas. Nariz impressionante: na verdade de primeira não pareceu tão
diferente de outros Sauternes (nem de outros vinhos de sobremesa em geral), com
mel em destaque e damascos a escoltar; mas girando a taça saíram dezenas de
aromas secundários e terciários. Flores brancas, tâmaras, canela, amêndoa,
fruta cítrica, açafrão, baunilha, manteiga, chá verde, e por ai vai. Como o
Bruno, fiquei alguns minutos somente namorando os aromas. Finalmente coloquei o
liquido na boca. Equilíbrio é a palavra chave. Corpo macio e sedoso, doçura
delicada, balanceada por uma excelente acidez. As sensações aromáticas se
repetiram no paladar, com a adição de muita mineralidade, algo tipo ferro e
querosene. De fato para mim este foi o verdadeiro diferencial, aquela sensação
que a Evelyn descreveu muito bem como “ferrugem”, que outro não é que a
mineralidade que deu fama aos vinhos de Sauternes, mas neste caso muito mais
marcada; mesmo assim nem um pouco incomodante, aliás, pelo contrário, muito
agradável e perfeitamente integrada ao resto. A persistência longuíssima deixa
o vinho na boca por vários minutos.
Enfim, um vinho extraordinário, não há dúvida. Mas sobre a
pergunta, que certamente vocês estão se fazendo, a resposta é: não, não vale os
milhares de Reais cobrados. Aí entra em jogo a questão da fama, da marca, do
mito, da história e toda uma série de fatores que tornam um vinho caro, que
vimos aqui.


