quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Pintura em uma taça: quando as descrições são cômicas

Descritores aromáticos não são invenções de enochatos, mas que o enochato gosta de inventar uns, isso é inegável.

Com certeza tem muitos profissionais, como sommeliers e jornalistas, com narizes treinados que conseguem identificar coisas que fogem aos comuns mortais, mas têm muitos outros que fazem somente pose e se adentram em cada descrição ousada só para ser notados. O que eles não percebem é que se tornam totalmente ridículos.

Impossível não rir na frente de descrições como esta:

O leque de nuance vai de banana à fruta cítrica antiga, à baunilha, e se fechamos os olhos a uma primavera botticelliana”.

Eu entendo a banana e a baunilha. Mas o que é uma fruta cítrica antiga? Uma laranja estragada, talvez? E tudo bem que fazer vinho é arte, mas alguém me explique como se faz a sentir o quadro na foto (justamente a “Primavera" do Botticelli) em uma taça de vinho?

A famosa revista italiana Il Mio Vino tem uma coluna que a cada mês premia as notas de degustações (de experts e especialistas) mais risíveis e engraçadas.

Por ai se encontram jóias como um vinho “não estrondeante empoleirados nas paredes da taça em grandes arcos com parábolas bem contadas, de cor rubicundo e ares por nada âmbar, com aromas de fruto adamantino” outro cujo “olfato vive de acentos verticais” ou outros com aromas de “manteiga derretida dinamarquesa, cereja de Ravenna e cebola vermelha de Tropea”.

Por favor, se a manteiga não for dinamarquesa nem pense em derretê-la para saber qual é o aroma, tá? E a cereja só vale a de Ravenna, todas as outras cerejas do mundo estão fora da jogada.

Poderíamos continuar ao infinito, mas gostaria de fechar com uma pérola descritiva como esta: “A carga expressiva é arquetipal; nariz reticente e quase monossilábico, um vinho que anda em uma esfera de sensações tácteis. Com a oxigenação tem um movimento de orgulho, uma tênue reação, que se concretiza em um simples engrossamento do que já existia... Um vinho silencioso por escolha, aonde o mínimo é o manifesto programático, mas não um limite, completado pela marcada tridimensionalidade. Enfim uma bebida espinhosa que nos deixa titubear em um incomum deja-vu líquido”.

Claro, não?

Depois das risadas temos que adicionar ao lado cômico o aspecto triste da coisa: contar o vinho desta forma não nos leva a lugar nenhum.

A culpa não é nem dos autores, que, coitados, nem sabem o que estão escrevendo, mas de quem os deixa publicar tais absurdidades.

A gente aqui, tentando descomplicar, divulgar de maneira simples e acessível às características e os atributos do vinho, e estes caras de pau querendo obter o resultado oposto, fechando sempre mais o círculo ao redor de pequenas elites pseudo-intelectuais, que se acham competentes, mas que no fundo escondem a própria ignorância atrás de palavras e metáforas bonitas.

Afinal alguém entendeu se o vinho da última descrição é bom ou ruim?

5 comentários:

  1. hahahah excelente post.
    Quando eu comecei a querer me tornar mais íntima dos vinhos, fui fazer um curso básico e na primeira aula um engraçadinho solta a pérola: "aroma de raposa suada com notas de alcaçuz etc...". Quase desisti, eu não sou capaz de tantos aromas complexos.
    Abs

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  2. olá, adoro o seu blog e o leio periodicamente, adoro inclusive a sua visão cartesiana e direta sobre a necessidade de tornar o vinho cada vez mais acessível, mas tenho de criticar sua posição em relação aos textos acima, que não são nada além de pura licença poética, e o vinho tanto quanto qualquer prazer e arte, abre espaço para uma literatura ao seu redor...
    assim como somos capazes de nos transportar a um lindo jardim em grasse ao sentir um incrível perfume, também podemos nos transportar a primavera de botticelli ao sentir os aromas de um excelente vinho...
    e obviamente que a relação com tal obra de arte só caracteriza a qualidade do vinho, e não poderia ser diferente...

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    Respostas
    1. Estou muito atraso me metendo nesta conversa, mas só descobri hoje este post. Sigo o blog a um tempo, se não me engano comecei no ano passado, mass este poste em específico me passou.
      Contudo queria dizer ao Mario Trano que concordo com ele, ams que é bom ter uma liberdade poética, o que não é o caso da maioria das críticas a cima. Pelo contrário, Gabriela, a maioria é pura retórica vazia como assim "Com a oxigenação tem um movimento de orgulho"? O vinho ficou orgulhoso? MEu deus, cuidado para não falar mau dele haha. Construir um texto comparando o vinho a um discurso até vai, pdoe ficar bonito, mas sem esnobismo. BOnito falar que ele é monosilábico, se vc deixar claro a comparação vinho texto. Rídiculo utilizar palavras ostentosas e sem ligação.
      PESIA SIM, TECNICISMO NÃO

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    2. Pedro,
      Você disse tudo. Poesia é uma coisa, viajar na maionese é outra...
      Obrigado por visitar e comentar.
      Abraço!

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  3. Gabriela,
    Primeiramente muito obrigado por acompanhar o meu blog e pelo seu comentários.
    Quanto aos textos acima, eu respeito a sua opinião, mas não acha que este tipo de abordagem “poético” afaste ulteriormente os consumidores “normais”? Não precisamos complicar mais ainda uma bebida que já não é fácil para muitos; e descomplicar o assunto é um dos propósitos (diria quase uma “missão”) do blog Mondovinho.
    Um abraço!

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