quinta-feira, 14 de março de 2013

O vinho do Papa


Habemus Papa. Um ótimo gancho para falar sobre um dos mais celebrados vinhos do planeta.

Na verdade a colocação do Beto Gerosa em seu Blog de Vinho é muito pertinente. O Papa Francisco é argentino, de origem piemontesa, uma pessoa humilde e de hábitos modestos. Então a lógica comparação vínica seria com a Bonarda: a casta é de origem piemontesa mas é mais cultivada em solo argentino, perdendo somente pela Malbec. E produz vinhos menos badalados e de temperamento mais modestos, embora de boa qualidade. Sem dúvida uma ótima observação. 


Mas aqui eu falarei hoje de outro vinho, historicamente associado aos Papas desde a Idade Média: o mítico Châteauneuf-du-Pape.

A denominação homônima fica situada no sul do Rhône, região ao sul da França. É bom lembrar que o Vale do Rhône foi praticamente ignorado, enologicamente falando, até os anos de 1980, quando o nosso querido Bobby Parker “descobriu” dois vinhos que sucessivamente se tornaram cult, o Hermitage e o Cote-Rôtie, dando fama e visibilidade para a região inteira.
Mas a história do Châteauneuf-du-Pape é bem mais antiga. A cidade de Avignon durante vários anos foi residência dos Papas, até que em 1316 o Papa João XXII, apreciador da bebida, resolveu plantar uns vinhedos e construir uma pequena fortaleza para incrementar a imagem dos vinhos locais. Nascia assim o “Novo Castelo do Papa”, ou seja Châteauneuf-du-Pape.

A denominação é hoje bastante extensa e seus vinhedos poderiam produzir grandes quantidades, se não fosse pelo estilo concentrado que se tornou típico, priorizando extração e pequenas produções.

A característica certamente mais chamativa é que a denominação permite o uso de 13 (treze!) castas, tintas e brancas, sendo Grenache, Syrah, Cinsaut, Mourvèdre, Counoise, Muscardin, Terret Noir, e Vaccarèse as tintas e Picpoul, Picardan, Clairette, Roussanne e Bourboulenc as brancas. 
Um recorde. Uma possível explicação (embora não confirmada oficialmente) seria que a legislação quis dar uma espécie de garantia para o produtor manter boa qualidade dos vinhos, tendo sempre, desta forma, como ajustar e melhorar o blend inicial com mais variedades.

Mas de fato, pouquíssimas vinícolas vinificam todas as castas, usando a maioria delas 3 ou 4 de média (também não são raros os casos de vinhos monovarietais). 
A base é quase sempre a Grenache, mas Cinsault, Syrah e Mourvèdre também atuam um papel principal: as primeiras dando estrutura e potência, as segundas acrescentando tempero e frescor. O resultado é frequentemente um vinho complexo e de grande guarda.

Ou você o toma logo ou espera quase uma década!

No quesito "guarda", dizem que e o Châteauneuf-du-Pape tem um comportamento anômalo na garrafa: depois de um par de anos ele adormeceria, para acordar e ressurgir depois de 7. Ou seja, no período entre o segundo e o sétimo ano de vida seria melhor deixar a garrafa descansar, pois o vinho estaria “escondendo” suas qualidades.  Não sei se isto corresponde a verdade (me parece mais uma lenda), de fato eu tomei Châteauneufs jovens, com mais de 10 anos e até no período de 2-7 anos de vida e todos foram sempre bons e marcantes. O ideal seria fazer um teste com 3 garrafas da mesma safra, abrindo uma logo, uma depois de 4-5 anos e uma depois de 7 para comparar as diferenças. Haja paciência (e dinheiro!).   

De qualquer forma são vinhos excepcionais, os tintos mostrando fruta evidente e notas exóticas de especiarias, evoluindo para fruta seca, tabaco e couro.
Os brancos, estruturados, com grande corpo e complexidade incomum, podem envelhecer por 10 anos ou mais.  

Detalhe de estilo: as garrafas usadas são de tipo borgonha (bojudas) e quase sempre levam no vidro um alto-relevo, remetendo a uma efígie papal. 

Fica então a dica para brindar ao novo Papa.

Duas garrafas no detalhe



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