terça-feira, 5 de abril de 2011

As denominações DOC e DOCG têm a ver com qualidade?

Existe muita confusão sobre as denominações de origem italianas: já escutei e li várias afirmações não completamente exatas e quando uma “nova amiga”, sommelier em formação, me perguntou a respeito, resolvi escrever este post para esclarecer um pouco.

As D.O.C. e D.O.C.G. são basicamente denominações geográficas, ou seja, relativas ao território e suas uvas autóctones (típicas), o que então não é diretamente relacionado à qualidade dos vinhos. Mas de qualquer forma se reflete na qualidade, pois a certificação é dada aos vinhos cujas características dependem principalmente das vinhas, e das condições naturais do meio ambiente.

Vamos ver no detalhe:

A legislação para os vinhos D.O.C. define as seguintes especificações:

- As áreas geográficas de produção;
- As castas;
- A tipologia de solo de cultivo;
- O rendimento em produção de uvas (para evitar a sobre-exploração da vinha);
- As tecnologias para a produção e envelhecimento;
- As características do produto acabado (acidez, extrato seco, teor alcoólico, características organolépticas) 
- Eventuais qualificações do vinho no momento da comercialização.


Alguns vinhos DOC no rótulo podem levar umas indicações adicionais:

- Indicação de "Classico" para os vinhos produzidos na zona de mais antiga tradição (dentro da área definida pela legislação);
- Indicação de "Riserva" para alguns vinhos submetidos ao envelhecimento maior que o normal (isso muda conforme ao vinho, pois evidentemente o tempo de estágio ideal em madeira para um Brunello di Montalcino não pode ser o mesmo de um Bardolino);
- Indicação de "Superiore" para os vinhos com melhores características (dependendo do andamento do clima da safra)

Estes vinhos devem ser submetidos, em fase de produção, a uma prévia análise químico-física e a um exame organoléptico antes de serem comercializados. A marca D.O.C. foi introduzida nos anos de 1950 pelo Ministério da Agricoltura Italiano e até hoje são 330 os vinhos italianos com esta denominação.

Já a DOCG (onde a G significa “Garantida”) foi introduzida em 1967 e é a máxima qualificação prevista. Ela pode ser dada somente aos vinhos que já tenham obtido a DOC há pelo menos 5 anos e tenham adquirido particular prestigio e valorização nacional e internacional por efeito de incidência de fatores e valores naturais, humanos e históricos.
Estes vinhos, além dos mesmos exames previstos para os DOCs tem que receber uma adicional análise técnica durante a fase do engarrafamento e uma análise sensorial (degustação) antes de serem comercializados.
Até agora somente 68 vinhos italianos podem se vangloriar deste título e trata-se justamente dos vinhos mais representativos cujo legado com a região a que pertencem vai além do consumo do vinho em si, mas está fortemente radicada na tradição, cultura e história local.

O descumprimento de até um detalhe mínimo impede a comercialização sob a marca DOC e DOCG.

Enfim, como estão vendo não é nada mole receber as certificações. Agora, é claro que dentro das especificações é critério do produtor caprichar ou não: dois vinhos da mesma denominação podem ter qualidade diferente, mas é evidente que os padrões mínimos têm que ser respeitados.

Desde agosto de 2009 entrou em vigor a nova legislação européia que engloba as denominações DOC e DOCG na nova certificação D.O.P.: Denominazione di Origine Protetta (protegida), mas por enquanto permite manter as velhas denominações.

No próximo post falaremos das duas denominações que faltam: IGT e Vino da Tavola

4 comentários:

  1. Veja você, Mario, como essas coisas são mutantes - especialmente na Itália ... Tenho uma apresentação sobre vinhos, que foi montada há uns dois anos - naquele momento, os DOCG italianos eram apenas 28 ...

    Nossa área de interesse assemelha-se muito à medicina - a gente tem que estar sempre se atualizando ... risos ...

    Abraços

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  2. Verdade Nivaldo!
    E não duvido que enquanto estamos aqui conversando ali tenha já mudado algo mais, e talvez os DOCG já aumentaram! ;-)
    Grande abraço!

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  3. Mario, as vezes a Itália e o Brasil se assemelham muito, inclusive nos piores aspectos.

    Mas por ouro lado OBRIGADO pela aula magna sobre o sistema italiano de classificação.

    Vou usá-lo nos meu próximos cursos.

    Um grande abraço Peter

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  4. È verdade Peter! Sobretudo na burocracia!
    Mas não tem que agradecer: “os amigos existem por isso”! ;-)
    Alias, eu que agradeço pela leitura e pelo comentário.
    Espero que tenha bom proveito da minha matéria nas suas aulas.
    Grande abraço!

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