segunda-feira, 26 de novembro de 2012

9 motivos para não ter uma vinícola e viver feliz


Então você gostaria de ser vinhateiro, hein? Claro você viu na tv uns dois ou três aristocratas em roupa de grife sendo entrevistados nos vinhedos, festas vip em castelos luxuosos e fotos em revistas glamourosas. Bom, tenho que lhe dar uma má notícia: o viticultor é um camponês, um agricultor, ainda com as circunstâncias agravantes do setor enológico. Se você plantar trigo, por exemplo, não terá que se preocupar com a qualidade da safra, com o ponto exato de maturação, com as leveduras, etc. Fazer vinho, a sério, prevê uma serie de habilidades e esforços ao limite da resistência humana e, no final do ciclo, vai ter sorte se conseguir pagar uma roupinha da Riachuelo. Então esqueça a vida high society, pois vai ter que encarar as seguintes 9 atividades menos glamourosas da face da terra:

1) Despertador às 4:00. O melhor momento para colher as uvas é o amanhecer. Os cachos não devem chegar muito quentes no porão, sob pena de perda de aromas essenciais. Afinal você deve ter se acostumado a levantar cedo, já que durante todo o verão sempre acordou ao cantar do galo. Sua vida social? Deixa pra lá, os morcegos no sótão têm mais vida que você.

2) Fashion. Calça jeans grossa, camisa de mangas compridas, botas e um chapéu para protegê-lo do sol. Seu espantalho olha para você e sorri. Mais que se vestir você se empacotou em uma embalagem que vai te proteger de cortes, urtigas e insetos irritantes. Até a equipe de Esquadrão da Moda vai achar seu caso irrecuperável.

3) A alegria da colheita. Duas horas de colheita e suas mãos estão tão pegajosas de dar nojo. Você tinha esquecido que as uvas contêm açúcar, e agora está tendo problemas com a tesoura e o resto das ferramentas. Lavá-las é inútil, depois de ter colhido 3 cachos ficou pior que antes. Lembra o que você respondeu para quem te propôs a colheita mecanizada? “Não, nem pensar: a colheita da uva é, para mim, o momento mais sagrado do ano, eu não quero máquinas na vinha”. Vamos lá, não banque o herói, enxugue as lágrimas e chame o cara de volta.

4) A lei é lei. A matemática não mente: para produzir cem litros de vinho, é preciso de duzentos quilos de papel, entre registros, notas e inúmeros documentos. Mas tome cuidado com o que escrever: vai ter várias entidades que te controlam. Cada um delas aparece sem avisar e você é forçado a suspender todas as atividades por causa de um detalhe burocrático. No topo da parada de sucessos de exigências impossíveis há o cálculo para subtrair as borras de vinho como um produto residual. Uma simples equação de 13 funções logarítmicas múltiplas, que normalmente se resolve com multas a pagar (em casos menos graves).

5) O pequeno químico. A fermentação maloláctica tramou um complô contra você, a acidez te odeia, os taninos são indisciplinados e as leveduras indígenas falam mal da sua família. Você gostaria de pedir ajuda de um enólogo, mas um breve parecer telefônico vai te custar mais que um cruzeiro no Caribe – que, casualmente, é a rota mais freqüentada pelos flying winemakers. O que fazer, pagar ou rezar? Ajoelhe-se, e seja convincente: ficar com milhares de litros de vinagre é uma cena provável, e pode acontecer em um piscar de olhos.

6) O dia depois de amanhã. Você está ali, olhando para seus vinhedos, cheio de orgulho, e de repente chega uma chuva de granizo que vai reduzir a colheita pela metade. Corre uma lágrima, mas no final se conforma, isto faz parte. Coloca energia positiva para a safra seguinte. No ano seguinte vem a seca a cortar metade da colheita. Você fica triste, mas é preciso coragem, não podemos nada contra a natureza, ano que vem vai ser melhor. Finalmente o clima foi perfeito durante toda a maturação das uvas, parece estar dando tudo certo, e quando faltam poucos dias para a colheita vão chegar dilúvios e enchentes para estragar o ano de trabalho. E por aí vai.

7) Rich & Famous. Agora que a garrafa está finalmente em suas mãos, pode se dar de presente 5 minutos de satisfação. No minuto 6 a ansiedade vai estragar o clima de festa com a pergunta maldosa: “E agora vai vendê-lo para quem?”. Se não tiver uma rede de representantes para bater portas (e pernas) vai ficar bem complicado. Uma vez que, milagrosamente, conseguiu colocar o vinho no mercado ainda vai ter uma barreira que nenhum outro produto agrícola deve superar: os críticos e os guias de vinho. Pode evitá-los e contar com os tais dos blogueiros, mas acredite, é como sair da frigideira para o fogo eterno.

8) Lehman Brothers. Legal, seu vinho é bom e começa a vender bem. Está até conseguindo entrar nos mercados estrangeiros, e logo depois que você conseguiu fechar com dificuldade umas parcerias com exportadores/importadores, a crise financeira da vez vai acabar com seus sonhos de glória. Seu porão fica com grandes estoques de garrafas, em igual quantidade, de vinho e lágrimas. 

9) Rei das finanças. Depois de 10 anos você percebeu que uma garrafa que você vende a U$8,00 te custa U$9,00. Boa sorte.

10 comentários:

  1. Isto prova que devemos valorizar os vitivinicultores e, que produzir vinho não é para aventureiros. Apesar de haver pessimismo demasiado no texto.

    No mais, parabéns pelo post.

    abraço!
    Leandro Ebert
    http://portalvitivinicultura.webscom

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    1. Leandro,
      Obrigado! Obviamente ha também coisas boas, o meu texto é mais uma provocação para aqueles que só enxergam glamour e riqueza neste trabalho.
      Obrigado pela visita e pelo seu comentário,
      Abraço!

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  2. Fazer parte da história da vitivinicultura Brasileira não têm preço, a alegria de estar todos os dias entre as vinhas e os vinhos e imensurável. Muito bom post parabéns... mas pense em 9 motivos para ter uma vinícola e ser feliz para um prôximo post. Abraço e saúde

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    1. Eduardo,
      Tem 100 motivos para ser felizes tendo uma vinícola, mas omo falei no comentário anterior este post foi mais uma provocação, ressaltando alguns dos aspectos negativos, já que todo mundo acha que ser viticultor significa glamour e dinheiro fácil...
      Obrigado por visitar e comentar.
      Abraco!

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  3. Olha, não sei se entende, de fato, de vinicultura, mas escreve muito bem.

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    1. Muito obrigado! Considerando que português não é minha língua mãe, seus elogios valem em dobro!
      Obrigado mesmo, pela leitura e pelo comentário!

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  4. Que desgraça de vinhedo é esse, taca fogo e planta milho. O meu tem apenas 2 mil m2, e só me da alegria. Logicamente da trabalho e se suja muito, mas pra mim é a melhor parte, outra faz importação = lucro.

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    1. Jacqueline, muito bom seu comentário, adorei! :-)
      Mas você entendeu o espirito irônico do post: as pessoas associam viticultura com glamour. Na maioria dos casos o glamour nem existe, talvez só a alegria. E mesmo onde existe glamour tem o lado B da medalha, que quis aqui mostrar com certo exagero, de forma satírica.
      Muito obrigado por visitar e comentar!

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  5. Poxa, estava até pensando em iniciar nessa atividade, mas como hobby, mas pensando bem, acho que vai me dar stress... rsrsrsrrs

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    1. Como hobby até dá, se não tem que depender desta atividade para viver acho que vai ser até divertido, mas se for para focar no lucro aí que realmente se torna estressante.
      Obrigado pela leitura e pelo seu comentário !

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