quarta-feira, 4 de julho de 2012

A diferença entre um degustador bom e um ruim


Compartilhar cuspideiras com amigos, colegas e estranhos não é definitivamente o máximo da imagem bucólica, nem motivo de felicidade, mas faz parte do “duro” trabalho de degustador.

Neste meio você acaba conhecendo degustadores de todas os tipos, seja claro. Tem aquele que se não sentir acidez tipo suco gástrico não vai acima dos 85/100, ou o outro que só gosta de vinho extremamente macio; aquele que sempre tem que ir contra-corrente e falar o oposto que todo mundo fala, e aquele que sabe reconhecer um vinho somente pelos aromas e depois é totalmente incapaz de avaliar a qualidade.

O degustador da pior espécie é aquele que se incorporou em um manual de sommelier: você examina o tanino e ele ainda está tratando da ameixa se é crua ou cozida; você está curtindo a taça e ele é indeciso entre equilibrado ou bastante equilibrado; você fala que aquele Tannat é harmônico e ele observa que Tannat nunca pode ser harmônico.

O péssimo degustador está cheio de certezas. Sabe que o Sauvignon Blanc tem os aromas X e não os Y, se ler Amarone della Valpolicella diz “geléia” por default, está convencido que um Moscatel tenha pêssego e sálvia sem nem cheirá-lo e não aceita discussões.

Pelo contrário, o bom degustador é um paciente cultivador da sagrada arte da dúvida.

Tem método sim, é treinado, tem bastantes referências, mas, acima de tudo, ama ser livre e ser surpreendido, compreender, crescer. Tem sua própria bagagem, mas deixa sempre que seja o próximo copo a falar e não o anterior. Do jeito dele, o grande provador tem uma abordagem, digamos "cartesiana", cultivando a dúvida sistemática. Tem mais atitude em fazer as perguntas do que dar sentenças: tenta interpretar o liquido deixando o vinho falar mais que ele mesmo. 

A beleza do vinho é justamente sua imprevisibilidade, por isso é bom ter mente aberta e esquecer o que estudamos nos livros: sempre haverá surpresas, as vezes não necessariamente boas, mas são justamente questões como estas que tornam o mundo do vinho ainda mais apetitoso.

10 comentários:

  1. Grande post, Mário ! Desnecessário dizer que concordo com tudo ... Uma observação : notou que seus comentários não se limitam necessariamente ao mundo do vinho ? Podemos generalizar para a vida, filosoficamente alando ...

    Abraços

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    1. Muito obrigado Nivaldo!
      Com certeza podemos estender o discurso para a vida em geral: sábio é aquele que sabe que nada sabe...
      Grande abraço!

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  2. Manter esse entusiasmo após tanto tempo trabalhando com vinho, por mais prazeroso que seja, é louvável. Muito bom post!
    Abraço,
    Mario.

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  3. Belo artigo, meu caro Mario! Eu ainda acrescentaria: o bom degustador tem prazer em provar/beber vinhos!

    Epifânio Galan
    VINHO SIM (www.vinhosim.blogspot.com.br)

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    1. Epifânio, claramente não tenho como discordar de você! ;-)
      Obrigado por visitar e comentar.
      Abraço!

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  4. ...tem ainda aquele que sente aromas de tomilho sem exatamente saber o é tomilho... kkkkkkkkkk
    Parabéns por mais este post, sempre inspiradíssimo Mario... sou sua fã, sempre serei.
    Abs
    Monica Alves

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    1. Monica, a verdade é que vc é sempre gentil demais comigo (apesar de eu ter desprezado o seu querido beaujolais! ;-)
      Obrigado!

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  5. Mario, Mario, o que dizer FANTÁSTICO diria apenas que a degustação tem, também, o imponderável IMPREVISÍVEL e a eterna curiosidade que move o enófilo. Espero estar classificado nos degustadores mais educados. Um super abraço. Um bacio alemdovinho

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    1. Peter,
      Você é o melhor degustador que nos temos.
      Obrigado pela sua visita.
      Un grande abbraccio!

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