domingo, 26 de setembro de 2010

Michel Rolland e o vinho Coca-Cola

Michel Rolland, o maior enólogo e consultor de vinho do planeta, durante uma palestra na INSEEC, a business school de Bordeaux, fez uma declaração que deixou todos os estudantes na sala (e os enófilos do mundo) sem palavras.

O vinho do futuro deverá se adaptar ao gosto dos clientes, que nem Coca-Cola”.

O enólogo de reputação controversa por colocar o aspecto tecnológico antes de qualquer coisa na produção de vinho, alegou que o terroir será importante somente para os grandes vinhos, mas que para todo o resto da produção vai valer somente marketing e tecnologia.

E deu como exemplo a Coca-Cola, que adapta o sabor do próprio refrigerante de acordo ao gosto do mercado local: por exemplo, no norte dos EUA ela vem com marcadas nuances de canela, pois o povo de lá gosta, assim como na Índia tem leves toques de especiarias, já na Europa é mais fresca e leve.

Então, argumenta o Rolland, se os indianos gostam de curry, eles vão ter um vinho com sabor de curry.

Triste, não é? Ele prevê esta cocacolização do vinho para o 2050. Pior que a previsão é tão triste quanto possível  Aliás, em minha opinião é até otimista em falar em 2050, pois há muito tempo os produtores tentam desesperadamente encontrar o gosto do povo, simplesmente ignorando o que aquelas uvas e aqueles terroirs produziriam de modo natural.

Alguns vão até achar isso bom, aqueles que nos consideram enochatos somente porque rodamos a taça o mergulhamos o nariz nela antes do primeiro gole.

E não tem muita coisa pra gente fazer para reverter este trend.
Talvez começar a beber mais vinhos orgânicos e biodinâmicos poderia ser uma idéia.

6 comentários:

  1. É simplesmente lamentável ler isso. O pior é que esse consultor tem sido figura influente no desenvolvimento da vitivinicultura sulamericana. Será que seremos bons produtores de coca-cola e, para beber vinhos, teremos de ir para a Europa?

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  2. Olha, fazendo uma nalise social do vinho, cheguei as seguintes conclusões, que podem muito bem serem erradas: o vinho tem que ser de seu terroir, mas não pode custar 100 reias, pois se não, não se massifica e vira, como é, coisa de luxo para os ricos; a transformação do vinho em coca-cola é ruim justamente por acabar com o terroir, mas, por outro lado, está tornando vinhos baratos em vinhos com qualidade para consumo (entenda qualidade, algo apra o dia-a-dia que bebe gente que gosta e aprecia vinho).
    Digo isso tudo pois não tenho como comprar vinhos caros, apreciando esses com meu pai e/ou irmão, mas tenho como comprar vinhos de 40 a 60 Reias, falo como quem vive isso: se não fosse a "cocalização" eu não tomaria vinhos interesantes no dia-a-dia, ou alguem acah que teríamos vihos interessantes em diversidade por esse preço? no Brasil não consigo tomar, com exeções, bons vinhos tintos por menos 80 reias, por isso nunca tomo.
    Sou contra a "globaritariação" do mundo, mas precisamos criar condições de consumo para impedir isso, quero tomar um bom vinho sem ter que ficar pobre.

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  3. Pedro,
    A sua analise é muito lúcida e entendo a sua visão. Concordo sobre o fato que de maneira geral os vinhos baratos têm qualidade maior. Agora é preciso dizer que alto preço é uma deformação do Brasil, pois o vinho da dia a dia custa lá fora menos de R$10... (de qualquer forma, na faixa de preço que você citou, tem coisas boas e diferenciadas sim, sobretudo do Velho Mundo). Mas o problema pra mim não é nem o preço, pois mesmo na faixa alta os vinho tendem a ser muito parecidos um com o outro...
    Muito obrigado pela visita e pelo seu interessantíssimo comentário. Fico com orgulho de ter leitores tão competentes.
    Abraço!

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  4. Este é o enólogo mais influente e respeitado no mundo, com ampla influência na Europa e em qualquer lugar do mundo... e não é a toa..

    fato triste e preocupante.

    Leandro Ebert
    http://portalvitivinicultura.webs.com

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  5. Qual o sonho da maioria dos produtores, e de qualquer pessoa que viva da venda de produtos que produz? Vender pelo melhor preço possível... Isso só é conseguido atingindo o paladar e o gosto de um grande número de pessoas, não a toa um dos mais conhecidos bordões no mundo do vinho é que "O melhor vinho é aquele que você gosta". Obviamente a comparação com a Coca-Cola não foi das mais felizes, Muito já se disse que os produtores franceses começaram a padronizar seus vinhos em função de Robert Parker, por ser um criador de opiniões, com o aumento da tecnologia da informação, blogs e tudo o mais, cada vez mais um número maior de pessoas passa a ter sua opinião divulgada e o esforço tende a ser maior. Um pequeno produtor vai continuar tentando produzir o melhor para poucos, para conseguir o melhor preço pelo qual consiga vender o furto de seu suor e de sua família. Mas os grandes conglomerados, que estão aí para quem quiser ver, esses vão precisar atingir um gosto padrão, e de preferência que atinja o maior número de pessoas possível, e nesse ponto, não sei se a frase está tão longe de uma realidade comercial que hoje já se busca, mas tudo é uma questào de escalas....

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    Respostas
    1. Marcos, comercialmente faz todo sentido, mas para nós, "românticos" do vinho é como levar um tapa na cara...

      Eu li quem alguns produtores franceses deixam o vinho feito para o gosto do Parker em barricas separadas somente para ele degustar e atribuir uma nota alta e que o vinho comercializado sucessivamente é outro, que segue os padrões e tradições locais.

      Não sei se é verdade, mas de qualquer forma gosto de acreditar nesta versão...rsrsr

      Obrigado por visitar e comentar.
      Abraço

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