sexta-feira, 10 de abril de 2015

Lambendo pedras: mineralidade em vinho existe ou é uma farsa?

Se você googlear a palavra “mineralidade” verá que 90% dos resultados é relacionado a vinhos (até em outros idiomas). Mas pelo visto, de acordo com vários experts, esta palavra nunca deveria ser usada falando em vinho, pois parece que seja pura ilusão.

O termo foi usado pela primeira vez pelos ingleses há 20 anos e hoje é tão utilizado e abusado que parece que vinho seja fruto de um suco de rochas. Mas a verdade é que de fato nunca houve unanimidade sobre seu significado.

Segundo muitos é um mix de sensações aromáticas que compreende silício, grafite, ostras frescas, naftalina, querosene, pólvora.

Já segundo outros a mineralidade é reflexo do solo especifico de onde foi feito o vinho, e requer conhecimento avançado de geologia, portanto deveria ser descartado pela maioria dos profissionais do vinho. Mas em alguns vinhos, especialmente em brancos de guarda, as descrições citadas afloram depois de razoável envelhecimento, o que indicaria que não seria conseqüência direta do solo.

Outros ainda incluem no conceito de mineral até os aromas animais, selvagens, de redução, ou até de algumas especiarias exóticas.

Os franceses nem usam a palavra mineral, preferindo a mais difícil empyreumatique para definir basicamente uma mistura de sensações salinas.

Confirmando esta tese, um estudo feito na Borgonha comparou pareceres de degustadores profissionais sobre diversos vinhos servidos em seqüência e o resultado final foi que o cada um dos experts manifestou opinião bem discordante, considerando minerais vinhos com características bem diferentes.

A verdade é que ainda não existe um significado unívoco e muitos usam a palavra só para fazer bonito. Portanto uma vez que o termo deixa espaço para interpretações, uma nova escola de pensamento está confinando a palavra mais dentro de um tipo de marketing que se alimenta de imagens poéticas e filosóficas, que em descritores técnicos de vinho.

Posso estar errado, mas pessoalmente eu acho que podemos usar a palavra mineral sim. Verdade, muitos a usam só para pose, citando silício ou grafite sem saber do que estão falando (obs: o silício não tem cheiro). Eu também não conheço muitos cheiros minerais e nem vou sair por ai lambendo pedras como o Gary Vaynerchuk já sugeriu.

Mas todos conhecemos o cheiro de pedra ou rocha molhada, não é? Todos nós já colocamos lapiseira na boca quando criança; todos já manuseamos algum tipo de ferramenta, ou já tivemos que trocar pilhas oxidadas de algum aparelho eletrônico.
Ecco: é exatamente a estas memórias olfativas que me remeto quando uso a palavra “mineral”. Aquele cheiro percebido ao entrar numa gruta (para quem já teve a oportunidade) que sinto num Pouilly Fumé, ou aquela sensação de ferrugem que percebo em alguns Sauternes. Posso até ter banalizado o conceito e causar revolta do mundo eno-chato-acadêmico, mas pra mim é isso aí.



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2 comentários:

  1. Muito pertinente e sensato o seu texto.

    Eu desconfio quando descrevem um vinho como mineral, sem nem ao menos dizer a qual sensação mineral estão se referindo. Me parece que foi usado a esmo, para valorizar um vinho simples, que agradou, mas como não há mais descritivos a aplicar, incluem um 'mineral'.

    Também vejo casos em que parece que confundem acidez com mineralidade. Uma vez ouvi de uma produtora de vinhos franceses, sobre a mineralidade de seus vinhos. Eu respondi que eu percebia uma boa acidez, mas não sentia a mineralidade, e ela disse "mas é essa a mineralidade!".

    Em outra oportunidade, um português me disse que mineralidade só se sente na boca, mas não no nariz. O aroma de querosene, para ele, era empireumático, mas não mineral.

    Particularmente, além do cheiro de grafite, brita molhada, mármore (sendo serrado com maquita) e querosene, eu incluo aromas de maresia que podem aparecer em vinhos envelhecidos perto do mar, como Ilha da Madeira, Colares, Cassis, Jerez. E incluo também a sensação de certa salinidade - às vezes descrita como sapidez - que estes vinhos podem apresentar na boca.

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  2. Rodrigo,
    Você disse tudo ( e até melhor que eu! Ehehe).
    Muito bem colocada a questão da acidez, que, concordo totalmente contigo, é frequentemente confundida com mineralidade. Assim como sobre sapidez ( engraçado que na Italia ninguem gosta de falar em salino, preferem usar a palavra sapido, o que pra mim é a mesma coisa...).
    Enfim, a questão é complicada e o debate continua aberto, mas fico feliz que de maneira geral concordou com a minha visão e que gostou do texto.
    Muito obrigado por visitar e comentar, abraço!

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