quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Pontuar ou não pontuar? Eis a questão (post polêmico!)


“Este vinho é um obra prima”, “A arte de vinificar”, “Vinho é poesia engarrafada” e outras expressões que ligam o mundo das uvas fermentadas ao mundo das artes são bem comuns em ambientes enófilos contemporâneos. Mas então se o vinho é arte porque não pontuamos também as obras verdadeiras? Já pensou? Segue uma imaginaria lista feita pelo imaginário critico de arte espanhol Roberto Parquero, um ex-advogado que se apaixonou pelas artes plásticas, fundador da influente publicação “El Abogado del Arte

ARTISTA
OBRA
PONTOS
Claude Monet
Nenúfares
92/100
Salvador Dali
A persistência da memória
98+/100
Vincent Van Gogh
Auto-Retrato
94/100
Leonardo da Vinci
Mona Lisa
90/100
Pablo Picasso
Guernica
100/100
Michelangelo
Capela Sistina
88/100

Seria ridículo, né? A beleza da arte está justamente na interpretação subjetiva e gosto pessoal: simplesmente impensável catalogar obras tão complexas sob meros números.

Por outro lado se queremos considerar o vinho come um simples produto de consumo alimentar, então porque não passar a pontuar os outros alimentos também? “Amigo, prove este salame, ele tem 95 pontos da Sausage Spectator” ou “Eu não compro arroz que tenha menos de 90 pontos da Cereal Enthusiast” poderiam ser conversas comuns entre gastrônomos e donas de casa.

A verdade é que, se pararmos para pensar, esta história de pontuar vinho não deveria caber em nenhuma ocasião. O que distingue, por exemplo, um tinto de 93 de um 94 pontos? Um Malbec de Mendoza de 91 pontos é igual a um Pinot Noir da Borgonha com a mesma pontuação? Afinal um vinho simples, mas muito bem feito poderia ganhar 100 pontos? Na teoria sim, mas na prática isto nunca ocorre.

De fato, o que acontece é que este tipo de avaliação, ao invés de ajudar, acaba confundindo ainda mais; e
tende a deixar o consumidor um pouco mais ignorante sobre terroir e tipicidades regionais das castas. Inclusive os profissionais: quando você pergunta de um vinho numa loja, o vendedor só sabe te dizer qual nota este rótulo ganhou, mas não sabe te transmitir nada sobre as características do vinho.

Já falei aqui que vinho para mim em termos de qualidade se divide em apenas duas categorias: bom e ruim. Depois entra o gosto pessoal, que faz o seu paladar definir aquele que é muito bom ou muito ruim. Sendo inclusive importante pra mim o respeito à tipicidade e ás castas: por exemplo um Saint-Emilion que lembre Napa pode ser um bom vinho em si, mas pra mim não é um bom Bordeaux.

Logo quando comecei a escrever sobre vinho, num dos primeiros post deste humilde blog, falei desta minha idiossincrasia (nossa, que palavra bonita! Nem sei de onde tirei...) com as notas de vinho. Mas por outro lado sei que este mercado atípico pede isto, portanto tentei me adaptar pontuando os vinhos de maneira simples de 1 a 10. Depois de um tempo parei definitivamente de dar notas para ser coerente com meu pensamento, mas muitos leitores e amigos não gostaram e me pedem para voltar a pontuar. Entendo que na correria do dia-a-dia é bem mais prático ir direto ao final do post e ver a avaliação em números, mas eu gostaria também que o leitor me prestigiasse lendo também as palavras, pois pelo mesmo motivo, na correria do dia-a-dia não é fácil estar atualizando o blog, pois cada matéria requer tempo, disposição e inspiração.

Enfim, como este sempre foi um espaço democrático e sempre quis o leitor protagonista, vou atender aos pedidos, tentando manter certa coerência com minhas idéias. O meio termo seria o seguinte: geralmente não falo aqui de vinhos ruins (ao não ser em raros casos especiais), portanto vou distinguir os rótulos interessantes para o blog nas seguintes 3 categorias:

* Bom
** Marcante
*** Memorável

Mas por favor, se tiver um tempinho, leia também as matérias: eu prometo ser mais breve. ;-)




6 comentários:

  1. A sua maneira de avaliar é muito parecida com a minha, aliás, sempre aprendo com você,o melhor que nós temos.
    Tom Meirelles

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    1. Muita gentileza sua, Tom. Mas a reciproca é verdadeira.

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  2. Eu concordo totalmente com sua opinião a respeito de notas. Nunca levo em consideração as notas ou medalhas que um vinho ganhou, para escolher que vinho quero comprar. E continuarei dando total importância aos comentários, impressões que você e outros escrevem a respeito dos vinhos. As notas, pode colocá-las para os outros.

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    1. Rodrigo, fico feliz em saber que não sou o único a pensar desta forma.
      Muito obrigado pelo seu comentário

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  3. Também concordo com sua opinião sobre pontuação, a vejo como a definição do gosto do avaliador se algo que ele gosta muito ele dá 10 ou 100 então se for um valor menor é sinal de que não gostou tanto.
    Aqui em casa eu e minha esposa resolvemos com uma classificação parecida com a sua que é: GM, G e NG

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    1. Muito bom seu comentário, fico contente em saber que concorda comigo. Obrigado pelo seu testemunho

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