quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Existe terroir para cerveja?


A cerveja está em alta, e nesta época de Carnaval o consumo vai subir ainda mais, então me parece apropriado recorrer para a nossa coluna MondoCerva e voltar a falar em breja. 

Mas para isso vou pegar emprestando um interessante tema enófilo: o do terroir. Pois é, o termo mais usado e abusado no mundo do vinho, bandeira de qualquer produtor, enólogo, sommelier, vendedor e apreciador; aquela palavra intraduzível que na verdade é um conceito que envolve condições naturais físicas e químicas, área geográfica e clima de um determinado território e relativa capacidade de conferir as próprias características (por meio de aromas e sabores) para um vinho.

Ok, mas será que isto se aplica para cerveja também? A resposta é menos óbvia do que parece. O raciocínio sugere que não, afinal para produzir uma cerveja basta seguir uma “receita”, que é reproduzível em qualquer lugar do mundo. Ou seja, se você seguir as instruções à risca, vai poder fazer uma dunkel na sua casa exatamente como as de uma cervejaria de Munich. Neste caso a diferença será resultante da experiência e da mão (que você não tem) de um mestre cervejeiro alemão que trabalha nisto há décadas.

Todavia existem vários fatores em que a área de produção vai impactar mais ou menos diretamente no resultado final da cerveja.

1) Primeiramente a água. Ma como assim? Água é água, vai me dizer. Claro que não: a composição química da água incide tanto na fase de produção tanto no gosto do produto final. Algumas cervejas são tão únicas justamente porque produzidas com água especifica. Isso graças aos vários minerais presentes que têm a capacidade de enaltecer ou esconder algumas características gustativas. Um exemplo são as pils tchecas, que devem muito da sua especificidade a uma água pobre em elementos dissolvidos.


2) Em segundo lugar temos malte e lúpulo, em que solo e clima não exercem a mesma influência que na uva. Mesmo assim o relacionamento entre território e lúpulo é ainda um mundo a ser descoberto e na Europa estão sendo estudadas algumas variedades de lúpulo autóctone, de cepas selvagens, e suas correlações com a produção de cerveja. Em breve saberemos mais a respeito.


3) E para finalizar, além de água, levedura, malte e lúpulo, muitas cervejas são feitas com adição dos mais variados ingredientes, como especiarias, flores, fruta (até uva mesmo), etc. que são produtos típicos do território. Aí que a procedência vai fazer toda a diferença: por exemplo, uma cerveja produzida com um limão daqui não será a mesma se produzida na Sicília com um limão local e daí por diante.

Isto abre espaço para infinitas versões e interpretações até da mesma fórmula.

Cheers!



0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...