domingo, 21 de fevereiro de 2016

Retomando a polêmica: Vinho Natural X Vinho Convencional


Por aqui gostamos de polemizar, portanto seguindo a tendência do momento (que dura há 20 anos), vamos voltar mais uma vez ao debate:  vinho "convencional" vs. vinho "natural".

Sem entrar exatamente na disputa do vinho com ou sem defeito que parou o País por alguns dias (SQN) e pela qual encontrará 12 simples desculpas neste outro post a coisa que me incomoda é a divisão de “classes”, de categorias, do eleitorado. 
Parece que temos que tomar obrigatoriamente uma posição. Eu não posso gostar de um e também do outro. Tem que escolher entre um time o ou outro. Penalidade: prisão perpétua.

Eu já disse e volto a dizer: contanto que o vinho me dê prazer, não tenho este tipo de preconceito.  Obviamente tem um estilo que eu prefiro, e, claro, se o vinho e os vinhedos forem tratados de forma mais "saudável", melhor ainda. Senão paciência.

Não me entenda mal, eu tenho bebido e elogiado (inclusive aqui no blog) muitos vinhos definidos "naturais", adoro literalmente alguns deles, mas não por isso deixei de beber vinhos "convencionais". Assim como os adeptos dos convencionais deveriam deixar o preconceito do lado e ver que existe vinho natural excelente.


O que não entendo nesta divisão é que deveríamos ficar horrorizados na frente de um vinho industrial (defina isto para começar), mas podemos continuar comendo qualquer porcaria. Tem muito mais aditivos/tratamentos/sulfitos numa alface, num pacote de arroz, num molho de tomate, numa fruta seca, que num vinho qualquer. Parece-me um pouco como aquela passista de escola de samba que se diz vegana, mas que veste uma fantasia feita com centenas de plumas de pássaros raros. Um pouco de coerência, pelo amor. Uma produtora de vinhos ‘’naturais’’ que só usa bolsas em couro da Louis Vuitton e Prada seria ou não um contra-senso?

O meu amigo Eduardo Angheben (produtor admirável e incansável do Vale dos Vinhedos) fez uma comparação muito exemplificativa, usando um paralelismo com a comida: o natural seria como a pessoa caçar o bicho, matar com uma lança (claro, qualquer arma de fogo seria proibida) e come-lo cru logo em seguida; já do outro lado, o industrial, seria o Mc Donald's. Mas entre estes dois opostos existem centenas de opções, meios caminhos, tendentes pra cá ou pra lá, todas igualmente válidas.

O vinhedo pode ser tratado de forma orgânica, mas o vinho ser manipulado à vontade dentro da adega, ou vice-versa, o vinhedo pode ser tratado quimicamente, mas a vinificação ser a menos interventiva possível, e aí?

Eu conheço (e vocês também) um produtor no sul que declara seu vinhedo como totalmente orgânico e biodinâmico, mas anda com um trator dentro dele. Então, é natureba ou não?

Os infames sulfitos: alguns (muitos) dos naturebas usam, outros (poucos) dispensam a utilização. What now?

Aaah ok, o problema então é das tais das leveduras. Outro produtor (vocês conhecem também) só fermenta com as indígenas, mas o vinhedo é tratado com métodos fitossanitários. E agora? Em que facção ele se classificaria?

Detalhe: as leveduras selecionadas também são naturais, caso não saiba.



Então vamos parar com esta divisão polêmica que não leva a lugar algum. Existe vinho natural fantástico e vinho natural sofrível, o mesmo diga-se para vinho convencional.

E citando este outro post (em que expliquei a questão para os alienígenas) afinal este luta entre as “forças do bem” e as “forças do mal” existe de fato mais entre os consumidores que entre os produtores, pois estes últimos sabem que precisam um do outro: ''os industriais precisam de um artesanato crível, que divulgue a idéia de um produto com identidade nacional e de qualidade. Os artesãos precisam de uma indústria que gaste o que puder em propaganda e marketing para reforçar a imagem do vinho local. Desta forma os dois sobrevivem e até se abrem novos mercados''.

P.S. homenageando o recém falecido Giacomo Tachis, provavelmente o maior enólogo que a Itália já conheceu (ou você talvez nem goste do Sassicaia?) vou citar esta máxima dele: “a coisa mais parecida ao vinho natural é o vinagre”. 
Uma provocação, é claro.







2 comentários:

  1. Grande Mario!

    Perfeito! Eu também não gosto de divisões. Se o vinho é "bão", tô dentro! Mas como você disse, se além disso, o processo envolver menos intervenção, menor uso de agrotóxicos etc, melhor ainda. Mas não é por ser natural, que o vinho é bom. Eu já bebi alguns excelentes, e outros sofríveis. O mesmo vale para os que chamam de "tecnológicos".
    Você tocou em pontos muito importantes. O das leveduras indígenas, por exemplo. Tem gente que pensa que as selecionadas deixam de ser leveduras...rs. Então, devem também parar de comer aquele pão crocante e fresquinho na padaria da esquina. E o sulfito? Como você bem lembrou, frutas secas são cheias deles, e ninguém reclama da dor de cabeça por comê-las. O fato é que parece que muita gente usa o jargão "natural" muito mais por marketing que por princípio.

    Belo artigo!

    Abraços,

    Flavio

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    Respostas
    1. Grande Flavio, você disse tudo!
      Fico feliz que estamos mais uma vez em sintonia.
      Muito obrigado por ler e comentar.
      Forte abraço!

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