quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Conhecendo de perto o mito: Château Margaux

Ao longo dos anos tenho visitado várias vinícolas, algumas bem badaladas, mas alguns nomes são certamente mais evocativos. Visitar o Château Margaux tem sido pra mim uma experiência emocionante e enriquecedora, que quero compartilhar aqui com vocês. Portanto hoje vamos falar um pouco deste mítico Premier Grand Cru Classé de Médoc.

Nem todo mundo sabe que o mais estiloso e aristocrático vinho de Bordeaux, tem passaporte grego. Talvez menos ainda saibam que o passaporte em questão pertence a uma mulher. Pois é: madame (ou κυρία, em grego) Corinne Mentzelopoulos, herdou a vinícola do pai André, um imigrante do Peloponeso que tentou fortuna no exterior. Mesmo formado em literatura, percebeu logo que tinha talento para comercio. Começou exportando e importando cereais com Oriente médio e Ásia e depois de casar com uma mulher francesa adquiriu em Paris algumas lojinhas de hortifrúti. Graças a sua visão e empreendedorismo conseguiu em pouco tempo criar uma vasta rede de distribuição de fruta e verdura com 1600 lojas na França inteira.

Com a recessão da década de 1970 a indústria vinícola de Bordeaux vinha passando por uma grande crise econômica (e qualitativa), foi aí, em 1977, que o Sr. Mentzelopoulos fechou com a família Ginestet, então dona do Château Margaux, a passagem de propriedade da vinícola. 
Investindo pesado e com paixão, André modernizou a inteira propriedade (os vinhedos, a adega, a cave) introduzindo barricas de carvalho de primeiro uso e lançando novos rótulos mais acessíveis. Inclusive construiu a maior adega subterrânea da região pela época. Os resultados foram evidentes já apenas no ano seguinte, quando em 1978 o Château Margaux foi avaliado como um dos melhores da região. Mas o Sr. Mentzelopoulos faleceu apenas 2 anos depois, deixando em 1980 o futuro da vinícola nas mãos de sua filha Corinne.

Desde então a jovem, com garra empreendedora, continuou investindo sem parar, também graças à ajuda da família italiana Agnelli, proprietária da Fiat e do Juventus (meu time de futebol de coração, diga-se de passagem) que injetou notáveis capitais no negócio, até ceder definitivamente sua parte em 2003, deixando 100% da atividade nas mãos da Corinne, que continua à frente da vinícola até hoje.

A denominação de origem Margaux foi sempre considerada (e com razão) a que produz vinhos mais elegantes de Bordeaux, e o Château Margaux é hoje, graças ao trabalho dos Mentzelopoulos, a máxima expressão da região. Cinco séculos de história francesa mudados radicalmente por um imigrante grego.

A vinícola introduziu recentemente (em 2013) um terceiro tinto com o duplo propósito de oferecer um vinho mais acessível para quem não pode pagar valores astronômicos e ao mesmo tempo ter maior giro de capitais para continuar investindo e aprimorando o primeiro e segundo vinho.  Portanto a linha completa hoje é composta por 4 vinhos (1 branco e 3 tintos): 

- Margaux do Château Margaux
- Pavillon Blanc do Château Margaux
- Pavillon Rouge do Château Margaux
- Grand Vin do Château Margaux

Quando visitei a vinícola fui recebido pela gentil e competente madamoiselle Emilie Janot que me contou boa parte da história acima exposta e me guiou num belo tour pelas instalações


O Château, embora não propriamente um castelo, seja talvez o mais belo de toda a região: o edifício (completado em 1815), já chamado de ''Versailles de Bordeaux'', é um dos raros exemplos de arquitetura neo-palladiana da França inteira.

A ''Versailles de Bordeaux''
Interessante notar que a vinícola está gradativamente abrindo mão dos avanços tecnológicos adquiridos, transformando novamente todo o processo em manual. Por exemplo, a vinícola utilizava o seletor ótico (automático) das uvas, já hoje a filosofia da casa acredita mais no olho do trabalhador, que mesmo podendo falhar, devolve uma dimensão mais humana ao produto.

A agricultura é feita de maneira sustentável, a colheita é manual e a tendência é deixar a fermentação acontecer naturalmente (embora dependendo das safras possam ser usadas também leveduras selecionadas) em toneis de carvalho. A maturação acontece lentamente em barricas de carvalho dos melhores produtores, com soutirage periódico a luz de vela e clarificação tradicional com clara de ovo.
Toneis de fermentação
As uvas que compõem os 3 vinhos são do mesmo vinhedo de 82 hectares plantado com Cabernet Sauvignon, Merlot, Petit Verdot e Cabernet Franc;  e a vinificação também é feita da mesma forma para os 3, sendo apenas avaliada durante o processo a performance de cada lote para a definição dos blends finais: a partir daí cada um segue seu caminho diferente (leia-se: tempo de afinamento em barricas, de 18 a 24 meses).



No final da visita a esperada prova: o primeiro e o segundo vinho da casa, ambos de safra 2004. Safra clássica. Posso dizer sem dúvida que o Pavillon Rouge mostrou já umas notas de evolução, enquanto o Grand Vin estava simplesmente perfeito e ainda com uns 20 anos de vida pela frente. As características gerais dos 2 vinho são similares, sendo obviamente elevados a potência N para o rótulo ícone.
Dois moleques de 11 anos


Nariz limpo de grande fineza numa combinação sutil de aromas florais, frutas e especiarias, todos claramente presentes, mas nenhum aroma dominando. Na boca, a estrutura tânica é densa, fina e macia. Grandíssimo equilíbrio, precisão, frescor e um toque etéreo, que só pode ser encontrado num grande Margaux.

Poderia beber tranquilamente apenas estes pelo resto da vida

Com a Emilie Janot no célebre vinhedo

Merci, au revoir


4 comentários:

  1. Parabéns pelo documentário bastante rico em informações para nós amantes do vinho.

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    1. Muito obrigado José Paulo! Fico feliz em saber que você apreciou

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  2. O melhor que nós temos com o maior ícone de Margaux! Parabéns pelo belo trabalho! Saúde!

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