quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Bandido bom é bandido viticultor


Chargui e Santo acordaram cedo. Acordar nas primeiras horas da manhã é o ideal, é mais fresco e o trabalho fica menos pesado. A tarefa deles é limpar a vinha, extirpando os arbustos da colina no centro de Gorgona, uma ilha-prisão do arquipélago toscano.  Chargui é um tunisiano de 47 anos e Santo um italiano de 36: ambos são detentos viticultores, que há tempo se dedicam ao vinhedo implantado e administrado pela histórica família Frescobaldi.

A badalada vinícola toscana há 6 anos gerencia 2 hectares e meio de terrenos de propriedade estatal de vinhas onde nascem 2 vinhos produzidos totalmente pelos detentos: o Gorgona Bianco (feito com as uvas Vermentino e Ansonica) e o Gorgona Rosso (100% Sangiovese), conduzidos em maneira orgânica. Em Gorgona só chegam condenados à longa prisão e Chargui e Santo ainda tem muitos anos de pena para cumprir. Mas trabalhar no vinhedo alivia parcialmente o peso da liberdade negada e, acima de tudo, permite que eles aprendam uma profissão.

Dia após dia se tornam mais experientes, mais sensíveis e responsáveis. Enquanto cavam a terra encontram algumas folhas familiares, e daí um ramo grande e robusto...para tudo, para tudo! Estão na frente dos restos de videiras históricas muito antigas (talvez seculares): de fato em Gorgona desde 1800 os monges cultivavam uvas. Emocionados os detentos chamam o agrônomo e o próprio Lamberto Frescobaldi, dono da empresa toscana. Agora aquelas videiras serão estudadas e quem sabe, podem representar uma importante descoberta.


Este é apenas um dos milagres que é possível assistir nos 2 km quadrados da ilha, situada perto de Livorno. “Na minha vida cometi erros graves e estou desapontado comigo mesmo – afirma Chargui – mas esta é a minha ocasião: deram-me confiança e estou fazendo o meu melhor para provar que a mereço. Aqui estou aprendendo uma profissão, quando sair da cadeia gostaria de trabalhar neste setor”. Se ele conseguir não será o primeiro: já vários ex-detentos foram contratados pela própria Frescobaldi e outros por diversas vinícolas também. 

Este é o sentido do projeto Gorgona, dar para estas pessoas uma segunda chance. Mas quem acha que é moleza está enganado: o trabalho na vinha é duro e cansativo, mas se colhem os frutos, literalmente.

O resultado se vê na taça. Os vinhos, tanto o branco quanto o tinto, são delicados e intensos com os perfumes típicos das ilhas do mediterrâneo. Estruturados, frescos e com breve passagem em barricas prometem longa guarda. Por enquanto são produzidas 4000 garrafas por ano, vendidas de Nova York a Hong Kong, passando, é claro, pelos melhores restaurantes da Itália.







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