sexta-feira, 2 de março de 2018

A “Cata da Lagoa”: uma prova surpreendente


Não é nenhum mistério que aprecio bastante os vinhos brasileiros, sempre elogiei e continuo elogiando (apesar da muito debatida questão dos preços, que na média acabam impactando negativamente a percepção do consumidor). Mas nunca imaginaria gostar de um vinho nacional de uma marca “comercial” mais que de um badalado Grand Cru Classé de Bordeaux...Mas vamos por degraus.

A convite do meu amigo/parceiro/mestre Mauricio Szapiro participei da reunião do mítico grupo 15 - ou seria XV? Afinal o grupo nasceu no século passado, isto mesmo, na ABS em 1998 e continua compartilhando experiências enológicas até hoje, com grande competência e alegria: já viajou de verticais de Cheval Blanc, de Barolos e Supertoscanos, mas sempre revisitando brazucas para averiguar suas evoluções (adegas cheias de Talentos e Lote 43 desde 99).

A degustação, inicialmente intitulada de “Folia Brasileira” e sucessivamente renomeada em maneira espirituosa de “Cata da Lagoa” (pelo resultado) ocorreu no badalado clube Caiçaras e acompanhada por um delicioso jantarzinho no restaurante da ilhota. A brincadeira foi a seguinte: garimpar nas respectivas adegas uns vinhos nacionais de safras mais maduras e compará-los. No meio disso, 2 Bordeaux para conferir.

Claro que faltaram vinhos ótimos entre os que são considerados referência para vinho brasileiro, mas o painel foi bem interessante e variado, inclusive alguns rótulos bem raros.

Depois de um Champanhinho de boas vindas (um ótimo Mountaudon Brut) os vinhos foram distribuídos em duas rodadas do mais antigo ao mais novo.



Estas são as minhas impressões gerais.

1)Boscato Cabernet Sauvignon Gran Reserva 2002
Aromas terciários em destaque, bom equilíbrio, macio, um pouco curto.


2) Pizzato Merlot 2002
Este tinha já mais “pegada”, mais acidez e taninos mais vivos.


3) Pietro Felice Cabernet/Merlot Gran Reserva 2002
Este rótulo já não existe mais, de qualquer forma descobri que a marca pertence ao grupo Sinuelo. Mais leve e menos persistente, mas mesmo assim continua agradável.


4) Marson Cabernet Sauvignon Gran Reserva 2002
Nariz fantástico (mentolado, balsâmico), fruta ainda viva, bela tensão ácida e taninos saborosos. Toda a tipicidade brasileira numa taça.


5) Miolo Merlot Terroir 2004.
Para a quase unanimidade, às cegas este era o Cos d' Estournel. Impressionante como um merlot nacional de R$ 150 possa entregar esta elegância e perfil de puro Bourdeaux. Fruta, acidez, tanino, madeira tudo em perfeito equilíbrio num conjunto de rara finesse e longa persistência.


6) Châteu Cos d' Estournel 2004
Badalado Grad Cru Classé de Médoc, a menina dos olhos de Saint-Estèphe não abriu como se esperava. Fechado nos aromas, sem expressão e com ponta de amargor no final. Garrafa azarada ou não, simplesmente não impressionou.


7) Miolo Merlot Terroir 2009
Engraçado como, comparado com o encantador 2004 acima, este parecia totalmente outro vinho. Não sei se é o reflexo de safras diferentes, se mudou algo na vinificação ou se precisaria esperar mais 5 anos para se assemelhar. Embora continue um belo vinho, este é mais encorpado, mais extraído, menos elegante.


8) Salton Talento 2009
Um clássico das mesas brasileiras, corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Tannat. Vinho alegre, nariz limpo, ataque preciso, final curtinho.


9) Villa Francioni Dilor 2009
Top da vinícola, produção super limitada, corte de Cabernet Franc, Merlot, Malbec, Cabernet Sauvignon, Syrah e Petit Verdot. Bem estilo Novo Mundo: fruit-bomb, madeira (30 meses em carvalho novo), muito intenso e musculoso. Impressiona sem dúvida, mas eu senti falta de acidez.


10) Châteu Fleur Cardinale 2009
Grand Cru Classé de Saint Emilion, nesta safra histórica veio para brilhar. Equilibrado, saboroso, fino, persistente. Irretocável.


11) Quinta do Seival Castas portuguesas 2009
Mais um belo rótulo da Miolo, este produzido com castas típicas da “terrinha”: Tinta Roriz e Touriga Nacional. Boa fruta, intenso, gostoso e harmônico. Personalidade portuguesa, com certeza.


12) Dezem Extrus Cabernet Franc 2009
Do Paraná. Boa surpresa, mais leve, mas não por isto menos interessante, puxando para um perfil mais delicado e floral.


13) Pizzato Alicante Bouschet Reserva
Mais um com uma casta típica portuguesa. O vinho tem boa expressão e ataque, mas faltou “grip” para a arrancada final.



Na avaliação de todos,  o “pódio olímpico” foi o seguinte:

Medalha de ouro: Miolo Merlot Terroir 2004: nota média de 94 pontos
Medalha de prata: Châteu Fleur Cardinale 2009: nota média de 93,5 pontos
Medalha de bronze: Quinta do Seival Castas portuguesas 2009: nota média de 92 pontos

O resultado final foi certamente surpreendente, mas independente disso, o que foi claro é que todos os vinhos estavam em excelente forma (mesmo os poucos badalados com 16 anos de idade) e todos com qualidade de sobra. Que venha mais vinho brasileiro!

O gurpo 15 (mais um intruso)


O resultado da farra

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