quarta-feira, 28 de março de 2018

O mito: Soldera Case Basse


Ok, vamos tentar descrever o indescritível: Soldera Sagiovese Case Basse 2008.
A história do Gianfranco Soldera é bastante notória. Personagem difícil de lidar, com ideias talvez um pouco radicais, mas certamente viticultor apaixonado e iluminado. Produtor do Brunello di Montalcino mais celebrado dos últimos tempos, hoje não pode mais rotular seus vinhos sob esta famosa denominação.

A tentativa de vingança que seu ex-funcionário quis realizar contra o ex-patrão “tirano” invadindo a vinícola durante uma noite em dezembro de 2012 e abrindo todas as torneiras de barricas e tonéis onde maturavam 62mil litros de vinho, e consequentemente jogando no ralo 6 safras daquele que era considerado o melhor Brunello di Montalcino, na verdade se tornou um grande favor para a vítima: seus vinhos ficaram ainda mais requeridos e os preços triplicaram.

Nesta ocasião, apesar das críticas ferozes que o Soldera tinha feito anteriormente contra vários produtores de Brunello que estavam usando outras castas não permitidas pela denominação, o Consórcio ofereceu para ele uma quantidade de uvas ou vinho como símbolo de solidariedade para que ele não ficasse fora do mercado. Mas a oferta irritou mais ainda o temperamental produtor: para ele o Consórcio estava propondo uma tentativa de “fraude” aos seus consumidores, engarrafando vinho produzido por outros. Na verdade os outros produtores queriam ajudá-lo no momento de dificuldade sugerindo que rotulasse a safra recebida em doação com algo tipo “A garrafa da solidariedade” e se quisesse poderia doar por sua vez os proventos para caridade. O nosso Soldera não apenas recusou, mais ainda atacou os colegas, considerando a oferta como inaceitável e ofensiva.

Enfim, errado o certo, o fim da história é que Soldera não faz parte mais do Consórcio do Brunello di Montalcino. E, como previsível, seus rótulos se tornaram ainda mais mitológicos.

Mas vamos ao vinho.


Este Sangiovese IGT é de fato um Brunello Riserva, mas pelos motivos acima não pode ser rotulado com a indicação da DOCG. O vinho é resultado de cultivo tradicional, vindo de vinhedos orgânicos conduzidos sem nenhum tipo de química. Dupla poda (inverno e verão), tratamentos naturais de doenças e colheita manual são mandatórios para ele, assim como o utilizo de leveduras espontâneas. Maturado por 63 meses em grandes tonéis da Eslavônia, segue afinando por mais 2 anos em garrafa em adega subterrânea (14 metros sob o solo) e temperatura natural constante de 13º graus, com umidade de 85%.

Na taça o vinho é um espetáculo. Eu diria um Brunello com a alma da Borgonha. Cor clarinha, um rubi de pouca intensidade, translúcido e límpido, apesar de não ser filtrado. O nariz mostra ainda certa timidez devida à sua juventude, mas o bouquet entrega perfumes de campo, pétalas de rosas, violetas, canela, talco, esmalte, tabaco. Na boca é algo sublime: leveza etérea e complexidade de sobra. A fruta delicadamente doce, a excelente acidez que forma sua espinha dorsal, a madeira imperceptível e os taninos finíssimos e aveludados fazem deste caldo uma verdadeira obra prima

Como já escrevi em rede social: falta o Vivino disponibilizar a 6ª estrela para que eu possa dar uma avaliação mais justa. Pra mim, o vinho perfeito.



2 comentários:

  1. Concordo totalmente com o sr.Gianfranco Soldera, e admiro sua honestidade. Quisera eu que nossos políticos aqui no Brasil fossem assim,decentes. Certo é ceto, errado é errado, e ponto final.

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    Respostas
    1. Marco, obrigado pela leitura e pela sua contribuição
      Abraço!

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